terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O futuro morreu.


Um vazio. O corpo retorna à marcha arrastando os pés, pesado e quente, com arrepios, ardores de raiva na garganta e no estômago. Ninguém mais o habita, porém. As ruas se esvaziaram como por um buraco de pia; aquilo que ainda há pouco as enchia desapareceu. As coisas ficaram ali, intatas, mas o ramalhete desfez-se, elas caem do céu como enormes estalactites, sobem do chão como absurdos menires, todas as suas pequenas solicitações cotidianas, todos os seus miúdos cantos de cigarra se dissiparam no ar. Elas se calam. Havia outrora um futuro de homem que se interpunha entre elas e que elas refletiam num leque de tentações diversas. O futuro morreu.
- SARTRE, Jean-Paul. A Idade da Razão

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